Equinococose do sistema nervoso central
3. Microscopia HE, texto. 
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HISTOLOGIA  -  HE
Havia abundantes cistos parasitários, geralmente formando aglomerados à maneira de cachos de uva.  Os parasitas estavam totalmente necróticos, restando apenas a membrana cuticular estratificada externa, que é acelular,  frequentemente com múltiplas camadas concêntricas de diferentes espessuras. A membrana prolígera, celular, e que representa o elemento vivo da larva, não estava mais presente, possivelmente pela idade dos parasitas, e/ou por efeito de medicação. Em volta dos restos parasitários desenvolveu-se uma forte reação inflamatória de corpo estranho, com células gigantes dos tipos Langhans e corpo estranho. Não foram, porém, notados granulomas de células epitelióides. 
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Parasitas. 

Larvas necróticas de Echinococcus granulosus.  Os aspectos foram semelhantes nos vários locais examinados. 

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Medula  espinal.  Um intenso processo inflamatório de corpo estranho à presença dos parasitas era observado na leptomeninge espinal, e envolvia também as raízes, algumas das quais apresentavam vasos com endarterite produtiva.  O infiltrado inflamatório crônico inespecífico era rico em plasmócitos. 
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Corpos amiláceos. Foram observados na medula espinal.  São acúmulos de material mucopolissacarídico em prolongamentos astrocitários e, portanto, mais observados em áreas de gliose antiga e em pacientes senis. No caso, devem relacionar-se à lesão crônica do tecido nervoso pelo processo inflamatório e vasculites.  Morfologicamente, têm forma de esférulas hialinas, que podem ser mais basófilas ou acidófilas (no caso, são acidófilas). 
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Endarterite  produtiva.    Reação inflamatória crônica pode levar à proliferação reacional da íntima de vasos, causando espessamento da parede e redução da luz, como observado neste caso. 
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Equinococose

O gênero Echinococcus é caracterizado por tênias pequenas com escólex, um segmento imaturo, um ou dois maduros (com órgãos genitais já desenvolvidos) e um grávido (com útero cheio de ovos).  A principal espécie de interesse médico é o E. granulosus, cuja forma adulta vive no intestino delgado do cão (hospedeiro definitivo).  A forma larvária, denominada cisto hidático, determina a doença chamada hidatidose ou equinococose, e pode localizar-se em vários órgãos dos hospedeiros intermediários. O principal é o carneiro, mas também o boi e o porco, além de animais selvagens e o próprio homem. O homem é um hospedeiro acidental, pois o verme terá pouca probabilidade de alcançar seu completo desenvolvimento. 

A principal distribuição geográfica da equinococose é em países e regiões pastoris, com grandes criações de carneiros. Na América do Sul, é comum no Uruguai, Argentina e sul do Brasil. 

O verme adulto de E. granulosus mede 3-6 mm de comprimento. O escólex tem 0,3 mm de largura,  com dupla fileira de algumas dezenas de acúleos e 4 ventosas, que fazem parte do aparelho de fixação do verme no intestino do cão. 

Ciclo biológico. O ovo assemelha-se muito ao de outras espécies de tênia.  Persiste no solo por longos períodos, chegando a anos, e resiste ao congelamento. A casca é dissolvida no intestino (ecdise) liberando a chamada oncosfera ou embrião hexacanto. Isto se dá em contato com os sucos digestivos e a bile do carneiro, boi e homem.  Auxiliado pelos acúleos, o embrião atravessa a mucosa e vai pela veia porta ao fígado, onde geralmente se implanta. Se passa pelo fígado, pode implantar-se no pulmão ou em outros órgãos. 
Uma vez implantado, o parasita sofre proliferação celular e ao fim da 1ª semana forma uma vesícula com luz central, que já é a hidátide definitiva. Nesta fase o diâmetro ainda é de apenas 60 70 mm.  Há duas camadas, uma interna, germinal ou prolígera, que é rica em células, e uma externa, uma cutícula delgada, hialina e sem estrutura, chamada membrana cuticular estratificada.  Por fora disto há reação inflamatória do hospedeiro, que pode incluir neutrófilos, eosinófilos, macrófagos e gigantócitos. 
Aos 3 meses o parasita alcança 4-5 mm, com 5 meses chega a 1 cm. O interior da vesícula é preenchido por líquido claro como água de rocha. 

A partir daí começam a desenvolver-se as vesículas prolígeras: aparecem como invaginações da camada germinal para o interior da vesícula. À medida de crescem, dão origem aos escóleces, que ficam voltados para o interior da vesícula prolígera, e formam acúleos e ventosas. No processo, invaginam a cabeça no próprio corpo para proteger os acúleos. Eventualmente, os escóleces desenvolvidos se destacam e caem no interior do líquido que preenche a vesícula prolígera. Aí ficam localizados, em grande número, até serem ingeridos pelo hospedeiro definitivo, geralmente o cão. 

A hidátide completamente desenvolvida apresenta-se como uma vesícula esférica com conteúdo líquido límpido. Histologicamente é composta de:

1) Membrana cuticular estratificada externa macroscopicamente tem cor leitosa ou levemente amarelada. É formada por lâminas concêntricas de material proteico semelhante à quitina, secretada pelas células da camada prolígera mais interna. Esta cutícula tem função protetora, sendo uma importante barreira às células inflamatórias. 

2) A camada prolígera ou germinal é muito fina, 10 20 mm, composta de células que atapetam internamente toda a vesícula.  Invaginações desta camada são as vesículas prolígeras onde se formam os escóleces filhos. Freqüentemente as  vesículas prolígeras rompem-se no cisto maior e lá liberam seus escóleces.  Quando se esvazia uma hidátide fértil em um cálice, as vesículas prolígeras e os escóleces sedimentam-se na forma de uma areia branca, na quantidade de 3-6ml. Calcula-se que 1 ml desta contenha cerca de 400.000 escóleces. 

O cisto hidático pode ser multiloculado, devido à formação de cistos secundários no interior do cisto primário, possivelmente através do destaque de vesículas prolígeras que formam uma nova cutícula em volta de si mesmas. 

Epidemiologia.  A hidatidose é uma zoonose, sendo o hospedeiro definitivo o cão, que abriga a tênia adulta no intestino (freqüentemente milhares delas), mas geralmente não apresenta qualquer manifestação. A contaminação dos hospedeiros intermediários como o carneiro, porco e boi se dá por ingesta dos ovos eliminados nas fezes do cão. O homem contamina-se por contato com o cão. Este tem ovos principalmente nos pelos da região perianal, mas que terminam por espalhar-se por todo o corpo do animal.  O cão contamina-se ingerindo vísceras de carneiros mortos, que habitualmente são descartadas, especialmente se contêm cistos hidáticos. Isto ocorre em estâncias ou matadouros não cercados. 

No homem, o cisto hidático desenvolve-se muito lentamente, sendo a infestação, via de regra, um acidente de infância. O diagnóstico só é estabelecido anos depois, entre os 20 e 30 anos. É raro encontro do cisto hidático até a idade de 4 anos. A partir daí a freqüência cresce regularmente. Certas atividades profissionais, como criação de ovelhas, predispõem ao contágio. Há também casos familiares devidos a uma fonte comum de contaminação, que é o cão doméstico. 

Quanto à localização do cisto no homem, o órgão mais afetado é o fígado (61%), seguido por pulmão (12%), rim (5,4 %) e músculos 1,8%. É raro em outros órgãos, como o sistema nervoso central, com menos de 1% (estatística de Pinto e Almeida, 1941, baseada em 387 casos no Brasil). 

Fonte:  Parasitologia Médica,  Samuel Barnsley Pessôa.  7a. Ed, Ed. Guanabara Koogan, SA, 1967. 

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Para mais imagens deste caso: 
TC, RM Macro  da  autópsia Lâminas  escaneadas
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